Rondônia

Da sacola de retalhos à rede de mulheres: moda afro-amazônica transforma vidas no Amapá

Redação

Rejane Soares iniciou sua jornada com uma sacola de retalhos e um banco de praça, fundando em 2013 o Instituto Zwanga Impacto Social no Amapá. Sua marca de moda afro-amazônica evoluiu para um projeto de transformação coletiva, focado na qualificação e empoderamento de mulheres negras, pardas e periféricas, incluindo aquelas em comunidades quilombolas e ribeirinhas da Amazônia.

A metodologia do instituto prioriza levar oportunidades diretamente às mulheres, em vez de esperar que elas se desloquem para os centros urbanos. A equipe atua nos próprios territórios, oferecendo cursos em áreas como corte e costura, tranças, maquiagem e biojoias, capacitando-as para gerar renda.

Após a conclusão dos cursos, as participantes expõem e comercializam seus produtos nas próprias comunidades, recebendo também os recursos necessários para iniciar suas atividades. Rejane Soares enfatiza que o objetivo não é apenas a certificação, mas sim fornecer as ferramentas práticas que asseguram a continuidade e aplicação do aprendizado.

Com uma metodologia consolidada e parcerias estabelecidas, o Instituto Zwanga buscou apoio do Sebrae no Amapá para expandir e fortalecer suas ações. Rejane Soares relata que o Sebrae tem sido fundamental no acolhimento e aprimoramento de projetos, além de indicar novas direções para um modelo que integra negócios, impacto social e combate às desigualdades raciais.

Rejane explica que sua inclinação para o trabalho em rede vem de sua própria história familiar, crescendo em um lar com seis mulheres negras que se apoiavam mutuamente. Ao iniciar a venda de suas criações, ela notou que outras mulheres enfrentavam desafios semelhantes para ingressar no mercado. “Venho dessa relação de afeto feminino coletivo. Sempre observei como estavam as outras que vinham do mesmo cenário de escassez que eu e como poderia somar com o crescimento delas”, afirma.

Rejane percebe a dimensão completa dessa rede quando a renda começa a circular nas próprias comunidades. Uma mulher que aprende um ofício, recebe ferramentas e conquista clientes, passa a consumir, vender e contratar localmente, mantendo os recursos dentro do território e abrindo novas oportunidades para outras.

"Isso é economia preta periférica. Isso é dinheiro na mão das mulheres negras", afirma Rejane. "É uma revolução silenciosa e necessária."

Rejane Soares, empreendedora

Os resultados do projeto se manifestam antes mesmo da conclusão dos cursos. Com a divulgação boca a boca entre mães, filhas, tias e amigas, a comunidade descobre que pode encontrar profissionais como costureiras, maquiadoras e trancistas sem precisar sair do bairro. Rejane Soares informa que aproximadamente 70% das mais de 360 mulheres capacitadas abriram seus próprios empreendimentos, um progresso que o Instituto monitora através de uma rede de apoio contínua.

As transformações são evidenciadas por relatos pessoais: uma mulher adquiriu uma geladeira com sua própria renda; outra encontrou trabalho como costureira durante o Carnaval; algumas conseguiram pagar cursos para os filhos, retornaram à universidade ou alcançaram independência financeira para sair de relacionamentos abusivos.

Rejane Soares destaca que a geração de renda é apenas um aspecto do processo. A capacitação também visa o resgate da identidade e autoestima de mulheres que enfrentam o racismo, desigualdades territoriais, falta de acesso a oportunidades e, por vezes, violência doméstica. No Instituto Zwanga, elementos estéticos e culturais negros e amazônicos são integrados à concepção dos negócios.

"Quando você entende que faz parte de uma herança ancestral rica, passa a entender que muito do que é nosso também pode fazer parte do nosso negócio", declara Rejane. Ela argumenta que a recuperação do orgulho pela aparência, pelo corpo e pelas referências culturais possui uma dimensão econômica significativa. "Autoestima e identidade resgatadas são gente preta sendo parte real da economia", conclui.

Compre do Pequeno

Os pequenos negócios representam uma força vital para a economia brasileira. Com mais de 24,19 milhões de CNPJs, eles constituem mais de 96% das empresas ativas e contribuem com 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Este segmento inclui mais de 13,5 milhões de Microempreendedores Individuais (MEI), 8,8 milhões de microempresas (ME) e 1,8 milhão de empresas de pequeno porte (EPP) em todo o país.

A relevância desse setor é anualmente celebrada em 5 de outubro, no Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa. Para marcar a data, o Sebrae organiza a campanha "Compre do Pequeno", que visa destacar a importância desses empreendedores para a vida das comunidades e o desenvolvimento local.

Apenas em 2026, o Brasil já contabilizou a abertura de mais de 4 milhões de novos pequenos negócios. A contribuição econômica também se reflete na geração de empregos, com cerca de 80% das vagas criadas pertencendo a este setor. Ao optar por comprar de um pequeno empreendedor, o consumidor impulsiona a circulação de recursos na comunidade, fomenta a criação de empregos e estimula o desenvolvimento da economia local.

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