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Políticas antitabaco devem ser integradas à saúde da população LGBTI+

Redação

Um levantamento do Instituto Nacional do Câncer (Inca), divulgado nesta quinta-feira (25) no Rio de Janeiro (RJ), revelou que a incidência de tabagismo é 76% maior entre pessoas homossexuais e bissexuais em comparação com heterossexuais.

A análise dos microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, principal fonte de dados oficiais sobre a saúde no Brasil, indicou que 22,4% dos indivíduos homossexuais e bissexuais utilizavam produtos de tabaco, em contraste com 12,7% dos heterossexuais.

Especificamente em relação aos dispositivos eletrônicos, como os vapes, a prevalência entre homossexuais e bissexuais foi quase seis vezes superior. A proporção de consumidores desse grupo é maior em todas as categorias de produtos de tabaco.

Aline Mesquita, pesquisadora da Divisão de Controle do Tabagismo e Outros Fatores de Risco da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca, afirmou que, embora o Brasil possua uma política eficaz de controle do tabaco, é fundamental integrá-la às políticas de promoção da saúde da população LGBTI+. Essa integração visa desenvolver estratégias específicas para atender a esse público.

Mesquita alertou que o tabagismo é o principal fator de risco para doenças crônicas, como cardiovasculares, cânceres e respiratórias, o que implica em maiores impactos na saúde e na vida dessas pessoas devido à prevalência elevada.

Denise Taynah, Secretária-Executiva do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBTI+ do Rio de Janeiro, defendeu que serviços de saúde que já atendem essa população, como as unidades que realizam o processo transexualizador, devem ser incluídos nas políticas de combate ao tabagismo.

Taynah questionou a eficácia dos serviços de saúde no tratamento para redução do fumo, ressaltando a necessidade de um protocolo para que as unidades colaborem na melhoria da saúde física e mental e na extensão da expectativa de vida dos indivíduos.

Indústria

Aline Mesquita destacou que essa disparidade no consumo já havia sido observada em estudos anteriores e é corroborada pela literatura científica. Ela apontou que a indústria do tabaco está ciente dessa diferença e tem direcionado esforços para incentivar o consumo entre a população LGBTI+.

A pesquisadora explicou que, frequentemente, a indústria utiliza a "responsabilidade social corporativa", patrocinando eventos para construir uma imagem positiva e, assim, promover seus produtos de forma indireta.

Outra tática da indústria é o lançamento de produtos com aromas e sabores, apresentados "com uma nova roupagem, cheia de aditivos, passando a ideia de um produto menos danoso", o que, segundo ela, é uma falácia e serve como isca, especialmente para os mais jovens.

Fatores-chave

Mesquita considera o preconceito e a violência como fatores cruciais para a maior incidência de tabagismo. Ela contextualizou que "90% das pessoas que fumam começam antes dos 19 anos", imaginando a vulnerabilidade de um adolescente que já enfrenta os desafios da adolescência somados à LGBTIfobia.

A pesquisadora do Inca complementou que essa situação aumenta a probabilidade de desenvolver quadros de depressão e ansiedade, criando um ambiente propício para o consumo não apenas de tabaco, mas também de álcool e outras drogas.

Embora a Pesquisa Nacional de Saúde não tenha abordado a identidade de gênero, Gab Van, diretor executivo da Liga Transmasculina João W Nery, afirmou que fatores semelhantes contribuem para o tabagismo na população transexual.

Van relatou que, em uma atividade da liga, foi observado que o início do tabagismo entre os participantes "coincidia com um momento de ansiedade, de violência", e que o consumo aumentava quando sofriam mais violência.

Danylo Guimarães, assessor técnico do Ministério da Saúde, explicou que o Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe do SUS APS, um sistema integrado da atenção primária com mais de 174 milhões de cadastros, que pode gerar dados sobre a população. Contudo, em 2023, apenas 0,15% desses registros continham informações sobre orientação de gênero.

Diante disso, a partir de 2024, os campos de "orientação sexual" e "identidade de gênero" tornaram-se de preenchimento obrigatório para os profissionais de saúde, após questionar o desejo do indivíduo em declarar tais informações.

Apesar da escassez de dados, foi possível confirmar a maior incidência de tabagismo na população LGBTI: 19,7% das pessoas que se identificaram como homossexuais consumiam produtos de tabaco, em comparação com 7,3% das que se declararam heterossexuais.

Guimarães defendeu a atenção primária à saúde como a "porta de entrada do Sistema Único de Saúde", destacando sua ampla capilaridade nacional. Ele reconheceu o papel da atenção primária como um espaço de escuta qualificada e precursor nos movimentos de controle do tabaco no Brasil.

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