O empreendedorismo no Brasil tem se consolidado como um pilar de inclusão e geração de renda para a população LGBT+, com dados do Sebrae revelando que aproximadamente 3,7 milhões de pessoas desse grupo já possuem negócio próprio ou atuam como autônomas no país. Essa realidade, que ganha destaque no Dia Internacional do Orgulho LGBT+, celebrado em 28 de junho, reflete uma busca por autonomia e superação de barreiras.
Para muitos, a decisão de empreender transcende a busca por oportunidades econômicas, tornando-se um meio de criar ambientes de trabalho seguros, alcançar independência financeira e superar os desafios e preconceitos frequentemente encontrados no mercado de trabalho formal.
Um levantamento pioneiro do Sebrae, divulgado em 2025, ilustra esse panorama, indicando que 24% da população LGBT+ brasileira já empreende ou atua de forma autônoma, e outros 20% planejam iniciar um negócio nos próximos três anos. A pesquisa aponta que, entre pessoas trans e travestis, o engajamento empreendedor é ainda mais notável, com 70% já possuindo ou planejando abrir um empreendimento.
Márcio Borges, gestor nacional de Empreendedorismo LGBTQIA+ do Sebrae, destaca a relevância econômica e o potencial inovador desse segmento. Ele afirma que “Estamos falando de milhões de brasileiros. É um público muito jovem, conectado e com enorme potencial de inovação. Não é apenas uma questão de quantidade, mas de diversidade, criatividade e capacidade de transformar o ambiente empreendedor brasileiro.”
Márcio Borges, gestor nacional de Empreendedorismo LGBTQIA+ do Sebrae
Borges complementa que o empreendedorismo surge como uma alternativa crucial para aqueles que enfrentam barreiras no mercado de trabalho. “Para muitas pessoas LGBTQIA+, empreender não é apenas uma escolha de carreira. É uma estratégia de vida. O empreendedorismo acaba se tornando um caminho de autonomia, de construção de espaços mais seguros e de afirmação pessoal diante das dificuldades encontradas no mercado formal de trabalho”, explica.
A empresária Letícia Amorim, fundadora do Instituto Amorim de Estratégia Gastronômica, exemplifica essa jornada. Após vivenciar homofobia e machismo no setor de alimentação, ela buscou no empreendedorismo a criação de um ambiente profissional que refletisse seus valores. “Percebi a necessidade de criar ambientes mais seguros e colaborativos. Hoje, a cultura de equipe é um dos pilares do meu trabalho porque acredito que respeito e inclusão também geram resultados e negócios mais saudáveis”, relata. Sua trajetória ganhou novo impulso com a participação no projeto Transcender, do Sebrae Rio. Inicialmente empreendendo de forma intuitiva, Letícia aprimorou a gestão financeira, remodelou seu negócio e definiu seu posicionamento estratégico. Ela afirma: “O Sebrae me ajudou a entender quem eu era como empreendedora. Descobri meu posicionamento como instituição de ensino e passei a enxergar oportunidades que antes pareciam apenas ideias soltas. Hoje tenho mais clareza, mais segurança e perspectivas concretas de crescimento.” O suporte especializado foi fundamental para estruturar serviços, otimizar finanças e planejar a expansão para outros estados.
A educadora e empresária Luciene Giuliani, criadora da SouSenior, que foca em inclusão digital e empreendedorismo para pessoas acima de 50 anos, também compartilha uma história de reinvenção. Após retornar ao Rio de Janeiro vinda do Pará, Luciene enfrentou obstáculos para se recolocar no mercado de trabalho, apesar de sua vasta experiência em educação. Essa dificuldade a motivou a transformar um desafio social em uma oportunidade de negócio, fundando uma empresa que visa promover autonomia digital e geração de renda para aqueles que podem ser marginalizados pelas mudanças tecnológicas. Como mulher lésbica e empreendedora, Luciene enfatiza que, embora sua identidade não defina sua capacidade profissional, o preconceito e a invisibilidade ainda restringem oportunidades para muitos na comunidade LGBT+. Essa perspectiva a levou a criar o Hub Diversidade, um projeto aprovado pelo programa Cariocas de Impacto, do Sebrae Rio. O Hub tem como objetivo fortalecer a inclusão produtiva, o empreendedorismo e a empregabilidade, especialmente para indivíduos que enfrentam discriminações múltiplas, como as relacionadas à idade, orientação sexual, identidade de gênero e vulnerabilidade social. “É impossível ignorar que pessoas LGBTQIAPN+ ainda enfrentam desafios relacionados à invisibilidade e à falta de oportunidades. O Hub Diversidade nasce para fortalecer trajetórias, valorizar potencialidades e criar novos espaços para quem muitas vezes não encontra portas abertas no mercado”, declara Luciene.
Raio-X do Empreendedorismo LGBT+ no Brasil
- 3,7 milhões de brasileiros LGBT+ possuem negócio próprio ou atuam como autônomos;
- 24% da população LGBT+ empreende;
- 82% faturam até R$ 81 mil por ano;
- 62% trabalham sozinhos;
- 63% têm entre 16 e 34 anos;
- Entre pessoas trans e travestis, 70% já empreendem ou desejam abrir um negócio.
Fonte: Sebrae/Datafolha – 2025.